segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Conto I

            Sempre pensei que morrer seria exatamente assim. Mas não posso dizer o mesmo daquele homem que presenciou tudo do meio da rua. Ele estava perplexo. Para mim foi uma transição até “suave” se é possível descrever assim. É como atravessar a rua e chegar ao outro lado. E foi bem isso mesmo que aconteceu...
            É um tanto estranho falar, mas no dia 7 de julho eu simplesmente vivia um dia inacreditável, sorte era pouco. Tudo estava perfeito eu tinha trabalhado muito, e a publicação do meu livro tinha sido um sucesso. Tudo tinha ocorrido como o esperado era um livro de ficção sobre o Egito antigo e tudo que eu mais queria era poder estar diante dos leitores naquela tarde de autógrafos, enfim para um primeiro livro não foi nada mal, aliás tinha excedido em muito minhas expectativa.
            Então, ao final da tarde de autógrafos eu saí como sempre fazia da minha livraria predileta e fui caminhando até a estação, mas à aquela tarde era especial como se eu tivesse subido um degrau desconhecido e saído da posição de leitora e passado a escritora, era tudo e era perfeito.
            Ao chegar à minha estação de destino subi o quarteirão pôs não possuía carro e me encaminhei para avenida que deveria atravessar para chegar a minha casa, distraidamente atravessei a rua sem verificar se haviam carros na via. Atravessei como de costume e uma brisa leve agitou os meus cabelos. Neste momento escutei um som arfante e levantei meus olhos que estavam baixos ocupados com o chão a minha frente.  Deparei-me com olhos escuros e uma tez pálida que olhava além de mim para o asfalto as minhas costas. Subitamente as coisas ficaram claras e eu me forcei a olhar para traz e todo o som do mundo voltou aos meus ouvidos.

            Pessoas gritavam e corriam numa cacofonia sem fim, o homem ainda à minha frente expressava tristeza e uma lágrima saltou de seus negros olhos e escorreu pela face. Ele agora me olhava e um breve brilho de reconhecimento passou por sua face. Mas isso não passou de um momento. Ele balançou a cabeça aos fechar os olhos e atravessou-me, digo isso por que a perplexidade foi minha, de repente quem se entristeceu fui eu: olhei para traz, estava caída e este homem sobre meu copo inerte. Ele. Era meu amor.
Escrever não é Ser

            Cheguei a conclusão de que não somos o que escrevemos. Escrever é sim uma parte de nossa alma, talvez a mais profunda mas não exatamente nós. Por que somos os seres que andam, convivem, falam e nem sempre medem os seus atos ou se quer pensam neles.
            Então, escrever não é um ato de existir, é apenas mais uma forma de pensar, e organizar idéias. Por exemplo, quando nos apresentamos em público, nem sempre conseguimos nos ater ao cronograma e muitas vezes diversificamos e acrescentamos e tiramos partes e muitas vezes esquecemos outras.
            Ao escrever, um poema, um texto ou uma música o artista deixa transparecer um estilo, algo único, não uma personalidade fiel à pessoa que ele é, como individuo. Mesmo sendo uma produção de teor pessoal, não somos fiéis a nós mesmo por que, não nos conhecemos a fundo, nunca testamos nossos maiores medos, até porque não sabemos quais são eles verdadeiramente. 
            Pensar é um ato filosófico e intrinsecamente complicado, e pode tirar o melhor e o pior de quem escreve. Somos inconstantes e até inconscientes, ser e pensar são diversidades de um ser. Escrever é um ato pensado, calculado, para adular, produzir fantasia na alma de que lê, ludibriar e comover. Se não sabemos quem somos, estamos criando mentiras nas quais acreditamos. Somos inocentes, queremos viver as palavras de amor que escrevemos e queremos acreditar naquilo que desejamos ser.
            Mas, somos o que somos isso é o que há. Seres incompreendidos por nós mesmo, na nossa mania de consciência, que nem sabemos o que é. Mas escrever não é apenas enganar a nós mesmo, é também descobrir que nossa alma é feita de representações das nossas idealizações, muitos de nós ao revisar perfis nem se quer acreditam que escreveram tais coisas sobre si mesmo, ou seja, mudamos de hábitos e gostos e comportamentos o tempo todo,  a prova disso é a escrita. E por isso mesmo, não somos o que escrevemos, somos o que vivemos, somos as pessoas nos relacionamentos, interpessoais, amorosos e de trabalho. Somos falhos, buscamos a perfeição nos outros, cometemos erros atrozes e apontamos esses mesmo erros horrorizados ao vê-los serem cometido por outros.
            Não somos perfeitos, estamos longe disso e as vezes esquecemos que somos frágeis, falíveis e mortais. Por isso, não devemos passar a eternidade nos “eternizando” em redes sociais e fotos vazias, por que o momento de viver é o agora e passamos horas a contemplar a vida pelas janelas virtuais. Devemos, sim escrever, mas também ler, ouvir, enriquecer a alma e partilhar conhecimento e manter sempre que possível contato físico e dar calor humano, olhar nos olhos ao em vez de esbarrar nas pessoas enquanto perdemos nossas vidas no vício da contemplação.